domingo, 1 de julho de 2012

Filmes Rockabilly

Gosto de tudo sobre o Rockabilly: a música, vestimentas, memorabília, as festas e todos os elementos estéticos. Psychobilly também, The Cramps é uma das melhores bandas da galáxia. E encaro o Rockabilly como uma cultura urbana antropofágica, assim como o hip-hop e tantas outras com seus códigos e rituais. Talvez seja uma das únicas manifestações culturais de apreço ao saudosismo que me desperte admiração. Está em sua raiz a busca por uma tradição que me agrada mas me assusta no apreço doentio pelas máquinas e quando vejo elementos descontextualizados (como bandeiras dos Confederados estampando paredes de festas em países miscigenados como o nosso).
E vou ser sincero, os fãs de Rock'n'Roll (seja lá qual gênero for) tem essa mania besta de querer renovação constante. Não tem qualquer apreço por tradição. Eu considero rock o som que se fazia com a guitarra e contrabaixos de mais ou menos 1954 (mas já com ecos nos anos 40) até 1962 no máximo. Depois disso virou outras coisas, sem problema nenhum, por quê tudo tem de ser rock? Se liberta.
Muitos falam do punk. De como CBGB'S foi um irradiador de gritos de fúria contra o mundo e de como tudo veio abaixo quando jovens ingleses começaram a gritar impropérios em meio aos salves à rainha e se esgoelavam em meio ao lixo das ruas como não havia futuro. Blá, blá, blá de como isso tudo chocou e colocou o jovem em outro patamar no mundo.
Há! Tudo isso é historinha para embalar nenê em comparação ao que a molecada dos anos 50 fizeram com o mundo, literalmente com o mundo. Marlon Brando em cima de uma moto de camiseta e um perfecto preta...terremoto de 9,6 na escala richter. Cada sacudida de pélvis de Elvis era uma explosão atômica. Bill Haley e seus Cometas eram os responsáveis de todos as desgraças da humanidade (de promiscuidade até o comunismo). Todo esse "movimento" foi orgânico, macro e respondia anseios impossíveis de classificar e bem visíveis a olho nú. Os anos 50 democratizaram a rebeldia que estava restrita às boemias das metrópoles e a dividiu com o mundo inteiro.
O cinema foi e é bem econômico ao representar o mundo do rockabilly das antigas e o atual, merecemos mais topetes e pin-ups nas telas grandes.
Uma primeira lista de filmes feitos no calor da hora ou que vieram posteriormente para prestar homenagens.


Deuce Of Spades - Olha sentimentalismo é bom, só não perca a mão como fez Faith Granger fez em sua premier. Tem algumas imagens lindas é verdade, mas tem uma hora que a câmera lenta fica cansativa. Essa ego trip de Faith Granger não consegue homenagear os tempos áureos do melodrama como fez nick Cassavetes há alguns anos. Existe ali inegavelmente lampejos de belas construções estéticas (a cena do hot rod no deserto infinito) mas falta largamente em conteúdo. Um roteiro chato e mega previsível. Só vale de curiosidade e pela beleza de Alexandra Holder.

O Selvagem - Bem, que o Marlon Brando é ícone para quase qualquer coisa não é novidade e não seria diferente para os rockers. Quer saber como um rockabilly boy tem que se vestir e portar? É só chegar ao fim da sessão desse filme. Não consigo deixar de pensar em Johnny Strabler como uma espécie de avô para Alex DeLarge. Além de Mr. Brandon temos outro ícone com quem troca sopapos o senhor Lee Marvin. Feito no calor do momento da delinquência juvenil que assolavam as famílias de costumes estadunidenses o filme não se esquiva muito e mantém até o fim um tom melancólico e fatalista. Tem imagens lindas como quando Johnny leva Kathie por uma alameda de chorões e tasca-lhe um beijo. Vale uma espiada.

Johnny Suede - Decadence avec elegance, certo!? Brad Pitt no começo da carreira e com um topete do tamanho de um arranha céu. Tem o lendário Nick Cave que por si só é sempre um acontecimento. Gosto da filosofia de Johnny: "Boa música não tem época". johnny vive na região mais pobre e sem esperança da cidade e se agarra a uma tradição remetendo a tempos aparentemente mais simples e esperançosos. Daí as escalas pentatônicas e os sapatos de camurça preta. Johnny é um ser deslocado no tempo e ninguém o compreende e ele não compreende ninguém. Lá pelo meio do filme (mais ou menos na cena em que Samuel L. Jackson aparece) você se pergunta: "Puxa, como esse filme não virou um clássico?" Depois de assistir ao final bobo, apressado e no mínimo estranho você entende. A trilha sonora é ótima.

Juventude Transviada - A idade em que nada se encaixa. Quer conhecer a geração que criou o rock e colocou a juventude em primeiro lugar no pódio? Uma das melhores respostas está nesse belo e lendário filme (um filme profético de certa maneira se se pensar no destino de seu protagonista, James Dean). Repare na participação de Dennis Hopper como membro da gangue. O filme é um prato cheio para simbologias psicanalíticas (cargas homoeróticas, complexos de Édipo do avesso, as cores simbolizando o destino e o caráter dos personagens). Natalie Wood é linda de morrer. James Dean é uma figura magnética e muito melancólica. Filme que influenciou um lista de obras que vieram posteriormente: vai de De Volta Para Futuro á Gladiador; duvida!? Está tudo ai, só não vê quem não quer. um filme tão definidor de uma geração quanto foi o Clube dos Cinco para os anos 80.
Cry-Baby - Esse não entra na categoria de musicais que não me irritam, entra na categoria musicais que eu adoro. O próprio John Waters admite esse é O seu musical. Johnny Deep engatinhando nas telonas e já tirando o fôlego das moçoilas. E, claro, tem o Iggy Pop o que sempre dá um ponto a mais para a obra. E não podemos deixar de frisar que é uma comédia competentíssima, tem cenas hilárias. Mesmo sendo uma produção comportadinha para grife Waters tem lá sua bizarrice quando Allison toma seu copo com lágrimas. Imperdível!

O Garoto de Liverpool - Os beatles podem ser a maior banda de todos os tempos, mas não fosse Buddy Holly e Elvis Presley os garotos John e Paul só poderiam vislumbrar trabalhos na zona portuária de sua cidade. The Quarrymen eram rockabilly até o osso. Sam Taylor-Wood acertou em cheio ao retratar garotos que precisavam explodir e encontrando um veículo para isso nos acordes que chagavam do outro lado do Atlântico. Sinceramente, a relação tumultuada relação de John Lennon e sua tia não me interessa muito, me interessam sua influências musicais e nisso sua parca relação com a mãe foi determinante.
Betty Page - Contradição é a palavra. A nação que produz incontáveis tonelada das mais loucas pornografias a combate e condena com a mesma energia. Uma estonteante e graciosa mocinha do interior muito bem resolvida com seu corpo apesar de uma criação familiar abusiva e a criação religiosa opressiva. Pin-Up, mulher cartoon, mulher de papel pronta a realizar seus desejos mais secretos, mulher que lhe captura inadvertidamente ao primeiro olhar. Gretchen Mol é um arraso (em todos os sentidos).

A História de Buddy Holly - Pena um bom filme como esse ser tão pouco comentado. O destaque vai obviamente para atuação de Gary Burey como Buddy holly. Sem dúvida, quando o avião caiu no milharal Albet Juhl e matou J.P. Richardson, Ritchie Valens e principalmente Buddy Holly, a música morreu junto. O primeiríssimo mártir do rock é um daqueles caras que nasce a cada milênio e chacoalha o planeta. Belo filme.

A Fera do Rock - Antes de ser o primeiro clichê do rock, Jerry Lee Lewis foi o primeiro incendiário do ritmo. Lewis elevou a já alta temperatura do rock a níveis solares. Wynona Rider é musa. Jerry cumpriu seu papel, mesmo não tendo "cabeça" para conquista o mundo tinha músculos para virar lenda e ficar com sua garota (mesmo que ela tivesse 13 anos e fosse sua prima). O rock deveria ser feito por caras assim: incansáveis em sua rebeldia (com ou sem causa), escandalosos e quentes.

As Sementes do Mal - Não é só por ser o primeiro filme de estúdio grande a usar rck'n'roll na trilha sonora e por ter o Sidney Poitier em início de carreira que está em nossa seleção. Adiantando temas que seriam abordados sem vigor em trabalhos como Mentes Perigosas e de forma cuidadosa e relevante com em Entre os Muros da Escola, As Sementes do Mal trata do assunto que mesmerizou a década de 50: essa nova espécie da fauna, o adolescentes. Jovens periféricos de megalópoles que não terão um futuro brilhante mesmo que se esforcem muito. Pobres, imigrantes/emigrantes, deliquentes e muito mal visto vandalizando e mandando na instituição de ensino que frequentam. "O" campo de batalha contemporâneo: as salas de aula. Lembro dos meus anos de escola...

A Gang da Pesada - Trata sobre o fim de uma geração. Essa molecada perdida nas ruas vai enfrentar tempos muito piores pela frente: o crime vai se organizar cada vez mais; a guerra num país do sudeste asiático está chegando; a morte de um presidente querido televisionada ao vivo; as namoradas engravidam e a música já não é mais aquela. no mesmo ano de The Warriors saiu essa outra pérola (tem sim seus problemas de ritmo ainda sim é um bom filme) sobre o universo das gangues de Nova York no começo do anos 60 que não perceberam o fim da era topete e brilhantina...os cabeludos estão chegando.

Os Cowboys de Leningrado vão para América - Mas onde está o Rockabilly? Em cada fotograma do filme, e não estou falando dos topetes monstruosos. Uma maravilhosa comédia surtada ou um estudo sobre o totalitarismo cultural estadunidense? Os dois e muito mais. Penso nesse filme como sendo um irmão de Isso é Spinal Tap, muitos o consideram superior a Blues Brothers, se é melhor não sei mais é incrível. Participação de Jim Jarmusch como sucateiro vale um ponto a mais. Percebe-se a origem nórdica do filme pela frieza em cada quadro mesmo tendo um coração pulsante que é o hilariante (involuntariamente) e mão de ferro empresário da banda Vladimir. Ele vale o filme.



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